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    27/11/2017
    Guerra da água
    Por: António Rodrigues - Jornal I

    antonio.rodrigues@newsplex.pt

     

     

    otícias de desavenças causadas pela água apareciam de vez em quando nos jornais. Disputas de agricultores vizinhos redundavam em tragédia, onde, na maioria das vezes, a morte chegava por uma arma de ocasião: a sachola. Tempos de antanho esses; com o país menos agrícola e os campos abandonados, deixou de haver tanto sangue a tingir a partilha do líquido essencial.

    A água não deixou de ser disputada como recurso imprescindível e cada vez mais escasso face ao crescimento da população e às alterações climáticas, antes pelo contrário, a preocupação com a sua gestão passou a estar no centro da vida moderna e, como tal, a luta pela sua posse também evoluiu para outros patamares.

    Segundo a ONU, desde 1947, registaram-se 37 conflitos interestatais por causa da água. Daqui para a frente será pior. As mesmas Nações Unidas preveem que em 2025 dois terços da população deste planeta estarão a debater-se com problemas devido à escassez de água. Se a população mundial continuar a crescer ao mesmo ritmo, 5,4 mil milhões de pessoas sofrerão de falta de água daqui a menos de oito anos.

    Já há até um jogo inspirado em simuladores de estratégia militar para ajudar a melhorar a gestão da água, de forma a minimizar o impacto da sua escassez e evitar os conflitos permanentes entre vizinhos na redistribuição equitativa de bem tão escasso.

    A “água é uma questão de vida ou de morte”, afirmou o presidente egípcio recentemente a propósito da gigantesca barragem que a Etiópia está a construir a montante no Nilo Azul. Quando estiver terminada, será a maior hidroelétrica de África e a sétima maior do mundo. Para o Egito, que retira do Nilo 90% da água que consome, a barragem do Grande Renascimento da Etiópia é uma ameaça ao seu futuro. Quando Abdul Fatah al-Sisi afirmou “somos capazes de proteger a nossa segurança nacional e a água para nós é uma questão de segurança nacional. Ponto final parágrafo”, a mensagem era clara e tinha claro destinatário.

    A água é matéria de guerra e paz, moeda de troca, valor importante de política externa. Há décadas que a China utiliza a água como instrumento para pressionar vizinhos, principalmente a Índia. Com a anexação forçada do Tibete e de outros territórios, é uma das maiores potências hidrográficas (a quinta em total de recursos hídricos renováveis) e nunca deixou de usar esse estatuto, construindo barragens nos rios internacionais, fazendo transvases. Ninguém possui mais barragens que os chineses e a ideia é prosseguir, para mal dos seus vizinhos com quem Pequim se recusa a assinar qualquer tratado de partilha de água. A China é um dos três países que votou contra a Convenção Sobre Proteção e Utilização dos Cursos de Água das Nações Unidas. Prefere usar a água como arma. Desde maio não partilha qualquer dado hidrológico com a Índia, deixando os dois países à beira de novo conflito.

    Em 2012, um relatório da CIA falava de um aumento de conflitos por causa da água a partir de 2022, sobretudo no Médio Oriente e no Norte de África. Com o aumento dos problemas de abastecimento de água, cresce a probabilidade dos Estados a usarem como trunfo nas suas negociações de política externa.

    A ideia da necessidade de proteger os recursos naturais, principalmente a água, anda por cá há décadas. Mas apesar de a ideia de um debate na ONU seja defendida desde o tempo de Kofi Annan como secretário-geral, foi preciso esperar até novembro do ano passado, por iniciativa do Senegal, para realmente a discussão chegar ao edifício de Nova Iorque: um debate sobre água, paz e segurança entre 69 países.

    Akbar, imperador mogol (do império indo-persa e não do leste-asiático mongol de Gengis Khan) construiu uma imponente capital no século XVI e deu-lhe o nome de Fatehpur Sikri (Cidade da Vitória). Urbe grandiosa, incomparável em riqueza e população a Londres, de acordo com o relato do viajante inglês Robert Fitch em 1589. Não foi auspiciosa a vida da nova capital, o imperador abandonou-a ao fim de 13 anos devido à escassez de água.

    Curiosamente, no ano passado, o ministro da Saúde indiano recorreu ao exemplo de Akbar para argumentar no Supremo Tribunal contra a construção de barragens no rio Ganges: “Se a água permanecer límpida e pura, tem a força para combater muitas doenças. Os mogóis também aceitavam essa qualidade especial do rio Ganges e, alegadamente, o imperador Akbar costumava beber água pura do Ganges ou água misturada com água do Ganges”.

    Rajendra Singh luta contra o problema da falta de água na Índia há 32 anos através da sua organização não governamental Tarun Bharat Sangh e acredita que o atual estado crítico dos lençóis aquíferos do mundo ainda pode ser revertido, até porque a alternativa não soa inspiradora: “A III Guerra Mundial está à nossa porta e será por causa da água, se nada fizermos em relação a esta crise.”